sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Feuerzangenbowle - tradição

Feuerzangenbowle. Essa palavra complicada de pronunciar significa, ao pé-da-letra, Ponche das Líguas em Chamas. É uma bebida tradicional alemã consumida especialmente nas vésperas do Natal.

Consiste, igualmente, num filme cult, daqueles clássicos insuperáveis, aqui na Alemanha. Todos os anos, milhares de universitários de todo o país amontoam-se nas salas de cinema e em cineclubes improvisados para assistir ao clássico. Chegam a vê-lo quatro ou cinco vezes durante a vida acadêmica.

Ontem fui com minha turma presenciar essa tradição, como não poderia ser diferente. Fui advertido de que deveria levar comigo um despertador, uma vela e uma lanterna. Não entendi muito bem na hora, mas quando vi o filme percebi porquê. O público inteiro interage com as cenas! Quando um dos personagens usa uma lanterna, todos acendem suas lanternas. O mesmo acontece com o despertador e com a vela.

Produzido em 1944, ainda em preto e branco, o filme se passa numa escola média alemã. Uma comédia jocosa que quase não foi liberada pelo ministério da censura do Reich alemão, por reduzir a autoridade dos professores. No roteiro, os docentes são caricaturados e os estudantes sempre levam a melhor.

Antes de iniciada a exibição, alguns estudantes tentaram alertar para a necessidade de senso crítico ao assistir o longa. Não ver simplesmente porque é tradição. Um filme que foi produzido durante a segunda grande guerra e que passou na censura alemã merece atenção especial. Mas poucos ligaram a mínima ao chamado, enquanto a multidão clamava pelo início do filme.

Foi interessante vivenciar mais esse momento. Embora infundadas, qual a sociedade que vive sem tradições? Pena que, na maioria das vezes, atropelem a razão e o senso crítico.

Abraços!

domingo, 6 de dezembro de 2009

Pausa

Esta semana, com uma prova de processo civil na sexta e um trabalho de direito civil para concluir, não deverei atualizar o blog com a freqência com que o tenho feito.

Entre os próximos posts estarão: a vida (suada) dos brasucas na Alemanha e o sistema de ensino no país, particularmente o dos juristas.

Abraços a todos!! E comentem os posts anteriores!

Diálogo no Escuro


Ontem (sábado 05.12.2009) vivenciei uma de minhas experiências mais marcantes até o momento na Alemanha. Eu e alguns amigos fomos a uma exposição chamada Dialog im Dunkeln, onde o principal objetivo é possibilitar aos visitantes vivenciar um pouco da batalha diária enfrentada por deficientes visuais, seja ao atravessar uma rua, embarcar, atravessar uma ponte ou simplesmente chegar ao balcão de um bar.

Na entrada da exposição devemos deixar de lado tudo que possa fazer luz. Somos recebidos por um guia (deficiente visual) num quarto semi-escuro e recebemos um "Stick". Com ele deveremos nos movimentar dentro das salas que se seguirão. O guia passa apenas algumas informações antes de entramos em cada sala - "a sala tem 15 metros e alguns obstáculos no caminho". E nos aventurávamos no escuro.

Lá dentro não se vê absolutamente nada. De início há um pouco de medo em não bater em ninguém do grupo, nem ir de encontro aos obstáculos. Mas é inevitável. Nesse momento, impossível não lembra do "Ensaio sobre a cegueira" do mestre Saramago. A sensação de impotência é enorme. Só aos poucos nos acostumamos a usar o stick e tatear bem os objetos.

Por ordem, fomos a uma feira, ao campo (tivemos que atravessar uma ponte estreita), à cidade (atravessar uma rua), ao porto (embarcar num navio) e a um bar. Cada cenário mais desafiador que o anterior.

Entre o porto e o bar, entramos numa sala onde nos deitamos no chão e escutamos por 10 minutos alguns sons. O chão vibra conforme o som reproduzido. No momento em que começamos a ouvir o som do mar, pensei em como um deficiente visual de nascença imagina o oceano.

A mensagem disso tudo é atentar para a qualidade de vida desse grupo, especialmente no Brasil. Na Alemanha tudo é pensado para facilitar a vida de um cego. Desde uma formação específica, a linguagem de Breil em todos os locais, a sinais sonoros nas ruas, a uma sociedade prestativa e cuidadosa.

Em última instância, trata-se de respeitar e admirar essas pessoas, sem subestimá-las. Apesar de simulada, a exposição desperta uma atenção especial para com os que não enxergam. Por isso, essa postagem exclusiva.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Arbeiten - uma boa alternativa

Uma postagem que interessa aos eventuais intercambistas que pretendem estudar na Alemanha. Trabalho!

Desde a semana passada estou cadastrado numa agência de emprego aqui que se chama JobCafe. Ela atua dentro da universidade e mantem uma base de dados com cadastros de alunos e de empregadores. É, sem sombra de dúvidas, a meneira mais fácil de encontrar trabalho por aqui.

Com o visto de estudos, só é possivel trabalhar 20 horas por semana na Alemanha. É mais do que suficiente para conseguir algum dinheiro a parte e não atrapalhar os estudos, nem o lado social por aqui. Além disso, conta enormemente como experiência.

O procedimento é simples: um empregador procura o Job Cafe e relata o perfil do "ajudante" que procuram, geralmente para empregos de um dia só (Tagsjob). Se o perfil e a disponibilidade se encaixam no teu perfil, eles te ligam e fazem a proposta.

Assim, trabalhei semana passada na casa de uma senhora que foi jornalista pelo Spiegel por mais de 25 anos. Ela tinha se mudado e precisava de ajuda para retirar seus livros de caixas e colocá-los nas estantes da nova casa. Recebi 9 euros à hora, sendo que a média alemã é de 7. Isso e uma tarde agradável, junto a uma feminista, que morou na Itália por 10 anos e em Nova Iorque por mais um tempo. Para aprender alemão, nada melhor.

Ontem e hoje trabalhei na maior Igreja de Hamburg, cartão postal da cidade - a Petrikirche. Ontem (03.12.2009) tivemos, eu e outro estudante, que arrumar uma sala de recepções, depois de um café da manhã patrocinado pela Igreja. Hoje (04.12.2009) o trabalho foi pesado. Tivemos, eu e mais 2 estudantes, que desmontar o altar e montá-lo noutra posição, para um concerto que haverá amanhã - não foi tão fácil quanto soa. Levamos 3 horas ao todo. Com isso, já deixei certo o trabalho amanhã, para remontar o palco - sendo que só seremos 2. Recebi 10 euros por hora. Ontem e hoje juntos, 50 euros. Não ouvi Lula, mas cheguei em casa com trintinha no bolso. Acho que valeu a pena.

E com isso, sigo a vida por aqui. Estudando, trabalhando, assistindo a palestras, farrando etc. Agora deixa ir lá, que vou encontrar alguns erasmus. Vamos a um "Singer Slam" (batalha de bandas) no bairro de Altona. É o soldo do trabalho já encontrando seu destino inevitável.

Auf Wiedersehen!

Brasil na vitrine


A conferência Brasi-Alemanha: tempo de uma nova parceria econômica deixou bem claro seu objetivo. Transferir tecnologia da Alemanha para o Brasil, em termos de logística aeroportuária, energética e de infra-estrutura. Tudo com vistas à Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.

A delegação brasileira era composta por diversos ministros, muitos mais do que os nomes que citei na postagem anterior. Entre eles, Dilma Rousseff, Guido Mantega e Pedro Brito (Ministro dos Portos). Do lado alemão, o mesmo naipe de autoridades, mas especialmente empresários das maiores companhias alemãs. Todas as apresentações brasileiras continham números que demonstravam vertical crescimento econômico no Brasil desde 2003, passando uma imagem de segurança econômica e jurídica aos potenciais investidores internacionais. A Alemanha, pelo histórico de excelência nos setores acima, está na cabeça da lista entre os investidores almejados pelo Brasil.

Infelizmente não pude ouvir a fala de Lula. Após receber a confirmação para participar no evento, fui informado que não poderia mais estar presente, por "questões de segurança". Então, aceitei um trabalho para hoje de manhã, na hora da fala de Lula. Mas quando terminei, na hora do almoço, passei na Rathaus para ver o andamento do evento e conheci uma turma grande de brasileiros, todos a espera do presidente.

Cheguei com minha autorização (revogada) e consegui entrar. Mas as falas do turno da manhã já tinham sido encerradas e o pessoal estava seguindo para um buffet, num restaurante que fica em baixo da Rathaus. Bendita autorização! O almoço estava espetacular! Com direito a repetição, sobremesa e cafezinho. Tudo, vale ressaltar, 0-800.

Durante a tarde falaram Paulo Godoy (Abdib) Pedro Brito, Murilo Barboza (Infraero) e um representante da Petrobras. Já não havia mais a esteria em torno de Lula. Dessa vez eram só os empresários e os brasileiros na mesa de negociações. Achei interessante a fala de Pedro Brito. Usou muitos dados e pintou um quadro otimista (como não podia ser diferente) da situação futura dos portos no país - colocando-os como motor do desenvolvimento brasileiro. Nesse ponto, não há cidade melhor que Hamburgo para nos ajudar nessa empreitada.

Basicamente, colocou que o modelo portuário brasileiro é semelhante ao alemão, no qual os portos são administrados pelo Estado, mas com 100% de investimentos privados. A única diferença é que na Alemanha o responsável pela administração é o governo estadual, não o federal, como no Brasil. Mostrou a atuação do Brasil no sentido de fornecer a segurança jurídica necessária aos investidores e falou na possibilidade de Joint Ventures entre companhias brasileiras e alemãs, no sentido de construção de terminais interios privados (caso da Odebrecht e Thyssen Krupp num porto d do Rio). Falou inúmeras vezes na necessidade de um "marco regulatório atrativo ao setor privado".

Nesse ponto é preciso ter bastante cuidado e não abrir as pernas de vez na busca voraz por investimentos internacionais - até porque nessas parcerias nem sempre há a desejada "transferência de tecnologia e de Know-How". Outra necessidade mencionada está em inverter a lógica Este-Oeste, passando para uma Norte-Sul, na qual os atores do Sul podem assumir papéis mais importantes no jogo econômico mundial.

Alguns dos dados mais interessantes: Hamburg movimenta, anualmente, 6 milhões de peus (não sei se essa é a denominação correta...). O Brasil inteiro, 8 milhões. O maior porto do mundo, Singapura, 30 milhões, e Xangai, o segundo maior do mundo, 29 milhões. Ainda temos muito o que crescer... Só na Ásia encontram-se 6 dos 10 maiores portos do mundo. Há 10 anos, não havia nenhum lá.

Recolhi bastante material publicitário, revistas e dossiers com dados, que pretendo levar ao Brasil. Esse foi um dia espetacular em Hamburg!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Palestra com Lula e Gabrielli

Está confirmado!

Quem diria que eu iria a uma conferência com o Presidente da República do Brasil na Rathaus de Hamburg? Isso, sinceramente, nunca imaginei. Me inscrevi, de graça, e recebi a confirmação agora.

Próximo dia 4 de dezembro Lula virá a Hamburg, junto com Sérgio Gabrielli (Petrobras), Luciano Coutinho (BNDES), Murilo Barboza (Infraero), Marco Antônio Martins Alemeida (Secretário de Óleo, Gás Natural e Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia), Paulo Okamotto (Sebrae), Reginaldo Arcuri (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial) e Sérgio Resende (Ministro da Ciência e Tecnologia), entre outros.

O tema da conferência será: Brasil-Alemanha: tempo para uma nova parceria econômica. Um dos focos será, justamente, a copa do mundo de 2014 e os jogos olímpicos de 2016. E a Alemanha certamente não quer deixar passar essa oportunidade de inserção no mercado brasileiro. Do lado alemão estão diversas autoridades de setores idênticos - portos, aeroportos, energia, comércio de maneira geral.

É Lula fazendo melhor aquilo que o professor formado na Sorbonne não chegou nem perto de fazer. A representação do Brasil nunca foi tão forte e pujante em todo o mundo como é agora. Um evento desse tamanho significaria outra coisa?

Depois relatarei brevemente as principais falas. Grandes abraços!

Dois meses - retrospectiva

É incrível!
Dois meses já se passaram, numa velocidade que a física jamais conseguirá explicar. Desde que cheguei, a paisagem mudou consideravelmente. O que era outono, com um arco-íris de folhas rosas, amarelas, verdes e laranjas hoje são galhos vazios. Onde havia o som das folhas balançadas pelo vento, agora há silêncio. Próximo passo será o manto branco cobrindo boa parte da cidade.

A experiência continua enriquecedora. A possibilidade de estudar noutro país, com uma língua completamente diferente, com uma cultura diversa da nossa e sozinho representa um desafio enorme. Mas um que acredito estar superando a cada dia, aproveitando ao máximo. A barreira da língua vai sendo aos poucos dobrada; a cultura vai sendo respeitada e assimilada (sem jamais esquecer as raízes nordestinas) e o fato de morar só passa a ser visto pelo lado positivo, no sentido de amadurecimento pessoal.

Fazendo uma retropsectiva da viagem até aqui, sinto que faltou apenas um coisa coisa: viajar mais. Mas esse "problema" está parcialmente resolvido. No Natal embarcarei para Suíça, onde passarei 6 dias na casa de parentes. Na agenda está, pelo menos, turismo em Genebra e, quem sabe, até pinta uma esquiada nos alpes.

Em Janeiro já tenho passagem comprada para Estocolmo, capital sueca, onde passarei três dias, com Jatin, italiano do Süd Tirol. A passagem custou impressionantes 12 euros (sendo 10 das taxas do cartão de crédito) - numa das promoções da Ryanair por aqui. Ainda em Dezembro planejo passar um dia em Bremen, cidade vizinha a Hamburg, e Lübeck, vilarejo igualmente próximo, que todos dizem ser incrivelmente belo. Para o ano que vem ficará também a visita a Amsterdan e Copenhagen, aí sim, um sonho realizado.

Entre as atividades previstas estão, já para essa semana, um jantar num restaurante para cegos, chamado Dialog im Dunkel (Diálogo no Escuro) e nova ida ao Fórum Criminal. No decorrer do mês, visita a Casa de Detenção de Hamburg e ao Planetário. Uma visita ao Mundo em Miniatura também não é descartada.

Na universidade, tudo corre perfeitamente. Já consigo entender bem as aulas e também tenho os livros e manuscritos das disciplinas. As provas já começam na segunda semana de janeiro, mas farei apenas quatro avaliações. A rotina de estudos já está sedimentada, contando inclusive com um ou outro trabalho diário. O importante, no entanto, é não deixar o espírito de intercambista esmorecer. Por outras palavras, nunca deixar de se fascinar com uma paisagem bonita, ainda que cotidiana; de estar aberto a novas amizades e experiências; de buscar o desconhecido; de estar inquieto; de ter em mente que já já acaba... Quem não desenvolve esse sentimento não merece estar aqui.

Que venha o desafio! Ou seria oportunidade? Pois que venham ambos! Estamos preparados!