sábado, 31 de outubro de 2009

O cara da estética do fracasso - Bernardo Carvalho

Olha aí a prova de que eu não estava delirando no penúltimo post. Eu e Bernardo Carvalho no restaurante Arkadesh, em foto feita por Paola.

Bons momentos!

Hafencity - O futuro está aqui


Na sexta-feira, pela manhã, dei uma volta na parte do porto de Hamburg que esté sendo reconstruída. Já no consulado alemão eu tinha visto algumas imagens dos projetos para valorização da área do porto, mas não acreditava que fosse tão real. Há mais de um século, os produtos trazidos pelos navios à cidade eram armazaenados na Speicherncity, ou "cidade dos armazéns" . Com o crescimento do porto, esses armazén tornaram-se cada vez mais obsoletos.

Com a segunda guerra mundial, a cidade inteira foi destruída. Então entra em cena uma série de projeto ousados para reconstrução dessa área, substituindo os antigos armazens por edifícios modernos, tanto residenciais, quanto comerciais. Resultado: um espaço extremamente valorizado numa região geralmente problemática. Pode-se comparar com o que foi feito em Belém do Pará.

Mas ainda há muito o que ser feito. Num golpe de visão, pude contar 13 gruas em atividade. Trata-se de uma "cidade" em construção, um microcosmo independente de Hamburg. Toda projetada, centrímetro por centrímetro. Não há uma previsão certa para a conclusão de todas as obras, mas acredito que até 2015 estará tudo pronto.

Um detalhe apenas sobre Hamburg: tem 1,8 milhão de hambitantes, mas possui um PIB igual ao de Berlim, que alberga 3,4 milhões, o dobro! A cidade é rica, as pessoas são ricas e há pouco desemprego comparado com Berlim. O que o segundo maior porto da Europa não faz com uma cidade?

Para os que se interessam em arquitetura moderna, os projetos estão todos nesse endereço aqui: http://www.hafencity.com/index.php?set_language=en&cccpage=projekte

Para os mais preguiçosos, seguem algumas imagens, ao menos, da Filarmônica do Elba, antigo armazém de Chá e Café (provavelmente vindo do Brasil e Comlômbia).


Elbphilharmonie em 2005, antes do início das obras.










Área do antigo porto que está em obras. Pode-se perceber claramente o modelo portuário, com os cais para cada navio:









Elbphilharmonie em maio de 2012, ao final das obras:












E pensar que em João Pessoa nós não conseguimos nem dar início às obras no Porto do Capim/Varadouro...

A vontade mesmo é voltar aqui quando estiver tudo pronto! Como Danilo disse, temos esse característica de estar numa cidade quando ela está em construção. Em Coimbra foi a mesma coisa - chegamos numa cidade, partimos de outra. Não fosse a estreiteza de minha estada aqui, tenho certeza que o mesmo se repetiria!

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A viagem é uma peregrinação de identidades


Sabem aquele dia no qual aconteceram tantas coisas, que ao final do mesmo você acha que já passou uma semana, mas você não queria que acabasse?

Pois é, ontem (29.10) meu dia foi assim. Começou mal quando recebi a notícia, por meio de minha professora, de que não poderia cursar alemão aqui porque não sou Erasmus. Mas conversei com a coordenadora do curso e ela permitiu que eu fizesse um curso especial de alemão, não tão aprimorado, mas simultâneo com um curso de alemão jurídico.

Depois disso, foi o dia em que mais falei portguês desde que cheguei em Hamburg. Alemocei na cantina da Uni-Hmbg com uma amiga brasileira, Elisa, de Belo Horizonte. Elisa é casada com um alemão e veio para Hamburgo fazer um master em Arquitetura. Durante o almoço, conhecemos uma outra brasileira, de Fortaleza, a Paola. Ela estuda Etnologia e Psicologia na Universidade e mora em Hamburgo há 2 anos, com a mãe. Antes disso morou 3 anos em Londres, pois a mãe estava no doutorado.

Depois do almoço bebemos um café juntos e fomos em busca de uma professora paraibana que mora em Hamburg e dá aulas na universidade há bastante tempo - a professora Vânia Karsch. Queria pessoalmente agradecê-la por ter auxiliado no meu processo de intercâmbio para a universidade de Hamburg. Essa senhora, simpatissímia, é hoje a grande ponte entre a UFPE, UFPB e a Uni-Hamburg! Ao falar com ela, avisou-me que a noite haveria uma noite literária no prédio de filosofia, com a apresentação da tradução em alemão de dois livros de Bernardo Carvalho. Assisti a uma aula cansativa e fui à palestra.

Carvalho é jornalista pela Folha e escritor (foto acima). Tem seus livros traduzidos em diversas línguas e ganha cada vez mais projeção fora do Brasil. Nenhum dos três fazíamos idéia de quem ele era e resolvemos arriscar. No mínimo, iríamos ouvir um pouquinho de português e depois sair para jantar juntos de todo modo. Mas a surpresa foi deveras agradável! Dos trechos que foram lidos e do debate que se seguiu, gostei bastante do que ouvi. Bernardo investe numa literatura do vulnerável, do perdedor. Aposta em histórias de fracasso e usa constantemente termos negativos nas obras. Só não foi melhor, porque a tradução era simultânea, com aquela interrupção na fala do palestrante. O que também não prejudicou a integridade do evento.

Ao final da apresentação, fomos falar com o escritor, parabenizá-lo e trocar algumas idéias mais. Eis que surge a velha proposta de jantarem os organizadores e o palestrante, e nós fomos expressamente convidados! Fomos a um restaurante turco muito bom (Arkadesh), conversamos muito português e demos muitas gargalhadas, tudo isso acompanhado de boa comida turca e cerveja alemã. Entre "causos" vividos na Alemanha e algumas brincadeiras, normalmente surgia um tema literário: um livro recém-publicado, uma tradução mal feita, um autor preferido... e umas frases interessantes. Lá pras tantas, um professor gaúcho, falando sobre um livro que tinha lido, relembra uma passagem que marcou a noite: "A viagem é uma peregrinação de indentidades". Poucas vezes vi tantas palavras, teses, pensamentos condensados numa só frase. Infelizmente, não lembro o nome do livro, nem do autor.

Com essa frase me despeço, comprovando que uma viagem é, realmente, uma peregrinação de identidades!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Óculos e Custo de Vida

Hoje, finalmente, busquei meus óculos novos! Depois de quase um mês usando lentes o tempo inteiro, já não aguentava mais. E depois, com lentes não consigo ler durante muito tempo, nem estar no computador. Os óculos vão quebar um galho enorme!

Um tópico sobre o qual ainda não postei no blog diz respeito ao custo de vida em Hamburg. É uma cidade que não foge em nada ao padrão "Europa". Por outras palavras, serviços com preços extratosféricos, entre eles, restaurantes, bares e acreditem, transporte. Um Hamburger paga, mensalmente, 80 euros por um ticket de transporte para ônibus e metrô - não é meu caso. Nos bares e restaurantes, uma cerveja custa 3 euros. A mesma cerveja pode ser comprada por 0,50 cêntimos em qualquer supermercado. Tirem suas conclusões...

O que é extremamente dispendioso são os shows (Konzerte). Mesmo apresentações de bandas locais custam, no mínimo, 11 euros. Esta semana quem estará aqui é Muse, por apenas 55 euros. Já para assistir a um show de Moby, basta desembolsar 40 euros. Até o show de CéU tá por 27 euros. Penso que há inúmeras outras e melhores possibilidades onde se aplicar tamanhas quantias.

Por outro lado, os supermercados oferecem produtos a preços acessíveis. Fiz 4 feiras durante o mês de outubro, gastando uma média de 10 euros em cada. Acabo de chegar do supermercado com uma feira para uma semana, que custou 9 euros. Os itens foram: 15 salsichas nuremberg (pequenas), mostarda, três caixas de leite, um suco, uma coca-cola, 1 kg de cereais, fondor e mais dois temperos de pimentão e noz moscada, queijo goulda, salame e pão em caixa. Como não estou almoçando na residência (além de não ter paciência para cozinhar, a comida na Mensa da universidade é muito boa e barata - 1,70 euros por refeição), isso basta para café-da-manhã, janta e almoço nos fins de semana.

Sabendo fazer, dá para viver bem, com muito lazer e diversão, sem precisar pegar pesado nos gastos. Aos poucos estou me acertando, aprendendo os macetes. E assim vou continuando a odisséia de um estudante em Hamburg.

Ao som de Cordel do Fogo Encantado, tchau e até a próxima!

sábado, 24 de outubro de 2009

Sistema Legal Alemão - I - Die Polizei


No âmbito do trabalho exigido pelo professor de Direito Processual Penal, Vitor Granadeiro, da UFPB, passarei a expôr alguns fatos acerca da processualística penal alemã, começando com uma análise de cunho sociológico acerca da relação entre polícia e sociedade. São, antes de tudo, impressões experimentadas no cotidiano da vida em Hamburg.

Hamburgo é uma cidade com quase 2 milhoes de habitantes (aprox. 1.800.000). Uma metrópole, portanto, considerada bastante "agitada" para a realidade alemã. A cidade divide-se em duas partes principais, o norte do rio Elba e o sul do rio Elba. A primeira, área desenvolvida, turística e residencial dos alemães, desenvolvida e calma em termos de ocorrência policiais - é onde vivo. Já o sul do Ela é complicado, com bairros mais pobres habitados por imigrantes, considerados como zonas "quentes" da Hamburg - palavras de uma hamburgerin. Já fui diversas vezes aconselhado a não ir a noite para o lado de lá do Elba. Mas tenho interesse em ir durante o dia, pois quero conhecer a cidade e não apenas o norte do Elba.

Desde que cheguei, vi pouquíssimas vezes a polícia nas ruas. Simplesmente não se fazem presentes na maior parte da cidade, isto é, a norte. Vê-se mais ambulâncias e corpo de bombeiros do que a polícia em si. Salvo nas áreas turisticas vultuosas, como o complexo de bares, casinos e sex shops da Reeperbahn.

A polícia de Hamburg tem a sua disposição os melhores carros-patrulha da Alemanha. Há duas semanas adquiriu quatro Mercedes-benz Klasse E, equipados com tudo que tem direito e um motor sensasional. Tem também a sua disposição tanques que tranportam os jatos de água, para dispersar manifestações. A administração da segurança pública é municipal, cabendo ao município a aquisição de bens e o equipamento de suas forças policiais.

Das vezes que vi policiais nas ruas, andavam armados, embora acreditasse que fosse uma polícia desarmada. Ou melhor, armada com cacetes ou teasers, ao menos nas atividades de patrulha. Os policiais andam com tranquilidade, transmitindo a convicção de que nada ocorerrá na área. A única vez que os vi em ação foi quando dois policiais apartaram uma briga na Reeperbahn, isto é, nada demais.

Os principais delitos são roubo, invasão de propriedade e furto. Durante todo o ano passado, foram registrados 890 assassinatos nacionalmente. A Alemanha tem níveis excepcionais de solução dos casos, chegando a 95%, o que gera a convicção de pena certa a quem se aventura num assalto a mão armada. Os tribunais, por isso, são cheios de casos de violência juvenil, especialmente depredação de patrimonio público e furto.

A maioridade penal na Alemanha é de 18 anos, mas existe um status especial para aqueles entre 18 e 21, contra os quais não se aplicam penas tão fortes, além de serem conferidas algumas garantias, como transação, pena alternativa etc. Para todos os efeitos, ainda são considerados "adolescentes". E nós, no Brasil, achando que o problema da segurança pública passa pela redução da maioridade penal...

Conversando com alguns Punks, as críticas à Polizei não inúmeras, em termos de brutalidade e desrespeito. Mas isso porque eles são uma classe de risco, especialmente visada pelas autoridades, mais por fama passada que por ações atuais de vandalismo. Isso terei que saber melhor, com outras pessoas, em especial imigrantes. A relação comunidade-polícia é relativa ao extremo.

A Polícia desemprenha um papel excepcional na elaboração do inquérito que sustentará a denúncia do ministério público. O sistema alemão é semelhante ao brasileiro, com um promotor acusando, embora não saiba se existe um sistema de defensoria pública, como no Brasil. Vi três processos judiciais e nos três os relatórios da polícia eram detalhadíssimos, com imagens, cds com vídeos, impressões digitais. Coisa de CSI mesmo. Mais detalhes ainda não posso fornecer, quanto a prazos, por exemplo.

Há duas semanas presenciei um evento interessante. Uma exopisição na frente da Rathaus (Prefeitura) com as forças de segurança pública (policia, bombeiros e cruz vermelha), entre elas várias unidades especiais anti-terrorismo - surgiu um boato de ataque terrorista à estação de trem de hamburg. Nesse "evento", a polícia exibe os cães treinados, os carros, faz simulações de salvamentos, exercícios de treinamento com civis, conscientiza as crianças sobre segurança pública etc. Em suma, passa para a comunidade a ideia de um órgão bem equipado, preparado e, acima de tudo, próximo, amigo do cidadão.

Por enqaunto é só. Procurarei me informar sobre o processo penal alemão com mais detalhes. Então teremos a segunda parte. Aguardem!

Semana corrida

Essa semana não consegui atualizar o blog como queria, mas por bons motivos.

Além das aulas, que começaram com toda, a vida universitária oferece diariamente inúmeras atividades. É só ficar antenado para perceber o quanto se pode aproveitar a experiência acadêmica aqui.

Toda quarta-feira, pela tarde, há alguma atividade acontecendo no Asta Café, gerenciado pela associação dos estudantes da Uni Hamburg, tipo nosso DCE. Essa semana foi só uma conversa com os Erasmus, com dicas e macetes para a vida acadêmica. Semana que vem será a vez do Halloween do Asta e na próxima semana é a vez dos brasileiros, numa boa e velha roda de capoeira. Vou matar a saudade das terras canarinhas nessa ocasião.

Outra ocupação que me consumiu bastante tempo foi a configuração de meu pc para receber o sinal wi-fi da universidade de hamburg. Existem dois softwares especiais, que são super difíceis de instalar. Mas agora já tenho acesso a internet sem fio em qualquer ponto do campus, a qualquer horário. Nesse ponto a organização da universidade e a gama de facilidades que estão a disposição dos estudantes impressiona!

Existe um grupo na universidade que organiza semanalmente um "cineclube" profissional, mas só com os filmes mais badalados do cinema. Cobram 2 euros pela entrada, mas a exibição ocorre no Audimax, o anfiteatro gigante da uni-hamburg. Na quinta passada (22.10) assisti a um filme francês fantástico: Wilkommen bei den Sch'its.

Um detalhe é que todos os filmes, séries e programas são dublados na Alemanha, algumas vezes até no cinema. O mesmo ocorre na Itália e na França. Para quem está querendo aprender alemão, como é o meu caso, é o ideal. Já para o povo, sera mais interessante a lingua original, por questões de familiarização com os idiomas estrangeiros. Há algumas semanas um importante político alemão, braço direito de Angela Merkel, chamado Westerwelle, disse a um reporter inglês que eles estavam na Alemanha e que por isso não iria ouvir as perguntas em inglês. Teria que passar por um tradutor nos dois sentidos. E ao final do discurso, disse algo como "Isso aqui é a Alemanha"... Olha aí a classe política dando o exemplo!

Ontem a noite (sexta, 23.10), fui novamente a casa de Andrea e Albana para outro jantar. Éramos eu, eles, Isotta, Morena (italianas), Katherine (alemã) e Egor (russo). Dessa vez quem cozinhou foi Andrea, uma maravilhosa macarronada com beringela, para 7 pessoas. A conversa foi igualmente interessante, mas porque conheci de perto o pensamento de um fundamentalista de extrema direita, o russo. Ele fala 4 linguas com fluencia e está concluindo ciencia política na Rússia, mas parece viver noutro mundo, uma bolha hermeticamente fechada, onde só existem teorias naturalistas para explicar tudo. Falou tantas atrocidades e mostrou tanto racismo com relação aos muçulmanos e aos imigrantes que não tenho mais interesse em voltar a conversar com ele, nem com quem pense como ele. O primeiro desse nível que encontrei por aqui. Péssimo embaixador da Rússia, já famosa por concentrar mais da metade dos neo-naxis do mundo e pelas ondas frequentes de xenofobia. Esse vai passar longe!

Mas isso não foi suficiente para atrapalhar a noite especial. Por isso, depois do "debate" seguimos para uma festa dos erasmus na universidade, no prédio de comunicação. O engraçado é que o espaço das salas de aulas serviram como pistas de dança. Albana, que vem da tradição norte-americana de respeito máximo a instituição, onde nem sequer no espaço aberto do campus são permitidas festas, ficou simultaneamente horrorizada e impressionada, por estar se divertindo no exato local onde teve aulas na manhã do mesmo dia. Não sabia como julgar aquela situação. Ela concluiu o ensino superior na Universidade de San Francisco e hoje está no master pela Universidade de New York.

Cada vez tenho mais afinidade com essa turma. Pessoas muito simpáticas, com as quais não tenho contato no dia-a-dia, o que ajuda por não desgastar. E depois, estou cercado de gente inteligente, o que só me puxa pra cima!

Até a próxima!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Stadtpark - só uma palhinha

No Stadtpark também tem o planetário, que vou visitar em Dezembro, numa excursão com a universidade. Assim é mais divertido que sozinho.


Essa é a visão do parque a partir do planetário. É um pedaço de verde enorme no coração de Hamburg, num dos bairros mais valorizados. E é melhor para visitar agora, que ainda não está nevando. Se bem que o parque todo branco deve ser de tirar o fôlego também..