sábado, 28 de novembro de 2009

Independência da Albânia


Depois da festa de ontem, almocei hoje na casa de Albana, do Kosovo. Ela preparou um prato típico albanês, chamado Hallev, em homenagem ao dia de independência da Albânia - 28 de novembro de 1912. Segundo Albana, esse prato é árabe, em função da religião predominante no país - islamismo. A região onde hoje fica a Albânia foi durante muitos anos dominada pelo império turco, que aos poucos sedimentou o islamismo no local.

O Hallev é essencial nas comemorações de independência e é simplérrimo. Em alguns aspectos, a vida nos balcãs lembra a vida no nordeste brasileiro - sofrida. Os ingredientes são: farinha de trigo, açucar e manteiga. Ao final, ganha a forma de um bolo e gosto é esquisito. Não fosse pelo açúcar, seria um pão. Ainda bem que não foi a refeição principal!

Mais uma vez, tive uma aula de História. Albana esboçou um pouco da conjuntura política dos últimos anos na região da ex-Iugoslávia. Em poucas linhas, depois da segunda guerra mundial, foi regida pelo Partido Comunista, na figura do marechal Tito, que governou até 1980. A idéia de uma República Iugoslávia unida, durante esses anos, foi imposta a força. As diversas repúblicas que a compunham possuíam religiões distintas, costumes diversos e até mesmo rivalidades históricas. Alguma semelhança com a África?

Com a morte de Tito, as Repúblicas desmembraram-se e instaurou-se uma guerra civil no local. No caso da Albânia, o conflito era contra os Sérvios, que controlaram o país durante alguns anos. Grupos armados iniciaram a guerra, que se prolongou durante anos. Recusavam-se a ser controlados pelo Estado Sérvio.

Em 1999 a OTAN interveio no conflito, depois de denúncias internacionais de massacres perpetrados pelo exército sérvio em diversas aldeias albanesas. O bombardeio durou mais de 3 meses, durante todos os dias. De alguns anos pra cá a situação melhorou, mas ainda existe a tensão entre os povos. Isso foi somente uma explicação relâmpago sobre a política e história no local, que costuma ser esquecido em meio aos "grandes" europeus. Procurarei saber mais e precisar melhor essas informações.

No mais, é isso aí. Vivendo e sugando ao máximo cada experiência durante esse intercâmbio!

Astra Stub

Depois de uma semana puxadíssima, repleta de aulas e trabalho, nada mais merecido que uma noite de folga na sexta-feira. Nesse dia a cidade está em delírio - todo mundo na rua! O metrô funciona durante toda a noite e está sempre abarrotado de gente. Loucura!

De início, estávamos a procura de uma festa russa, com música ao vivo. Ouvir sempre as mesmas músicas depois de um tempo fica chato... Mas depois de 30 minutos girando pelo bairro de Schanze, decidimos mudar os planos. Depois de tanto andar, damos de cara com um bar chamado Astra Stub ("astra" é o nome da principal cerveja de Hamburg, produzida aqui), que fica num cruzamento, debaixo de uma ponte, numa esquina escondidíssima. Quem passa por fora num imagina o que tem lá dentro.

Música ao vivo e um ambiente incrível! Uma banda de Bremen, estilo Indie Punk, na esteira da conhecida Escola de Hamburg. Precariedade total (o bumbo da bateira era segurado por dois tijolos em cada lado e o pedestal do microfone tava quebrado), mas muita improvisação e muita qualidade também! E pra completar, a entrada "kostenlos". Primeira!

Abraços!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Sistema Legal Alemão - Strafgericht II - Drogenfall

Na quarta-feira voltamos a acompanhar um julgamento no Fórum Criminal de Hamburg.

Antes de entrar em mais detalhes, devo corrigir um erro que cometi em posts passados. Em determinado momento mencionei que a polícia na Alemanha é municipalizada. Me confundi, pois na Alemanha existem três Cidades-estado - Berlim, Bremen e Hamburg. A segurança pública é tarefa do estado federado, que no caso de Hamburg se resume à cidade. Por isso minha confusão.

Voltando ao tribunal, não posso deixar de exprimir minha decepção ao saber que nossa visita à casa de detenção - Untersuchungsgefängnis - foi adiada para dezembro e que a ida à santa Fu ficou para o verão. Más notícias!

O essencial sobre o funcionamento do tribunal eu acredito que já expliquei em post anterior. Há apena um tribunal reponsável pelas primeira e segudna instâncias. Por isso, poderei alterar entre fórum e tribunal. O caso dessa vez envolvia entorpecentes e se esttendeu mais que o esperado.

Em apertadíssima síntese, o réu estava sendo julgado pelo porte de 68 gramas de maconha. Ele tem 36 anos, alemão, é solteiro e empregado (não consegui entender onde). Como ele chegou até à sala de audiência não deixa de ser engraçado... Em fevereio de 2009 estava dando uma festa na sua casa, com alguns amigos. Lá pras tantas da madrugada os vizinhos, incomodados com o barulho, chamam a polícia, que vem até a casa para restaurar a paz social. Quando o cara abre a porta, os três policiais que o aguardavam sentem o cheiro da erva e exigem que os deixem revistar a casa, ameaçando voltar com os cães farejadores. O réu se recusa e tenta fechar a porta, no que uma policial coloca o pé e o impede de fechar. Na residência, foram apreendidas as 68 gramas.

Na Alemanha, como em muitos outros países, o consumo de maconha é descriminalizado. Perguntamos a professora qual é o limite de porte de maconha permitido, para que não se configure tráfico. Como ela é professora de alemão e não de direito, não soube informar. De todo modo, 68 é em muitos países consiedarado tráfico. E por isso o réu está sendo processado.

Como o caso envolve crime com pena mínima superior a um ano de prisão, na decisão influem igualmente dois juízes leigos, além do togado. Isso eu não entendi direito na Alemanha. Eles tem horror ao Júri, porque desprestigia a atividade do juíz, mas aceitam juízes leigos.

As testemunhas eram um vizinho e os três policiais que efetuaram a apreensão. O membro do Ministério Público exerceu seu papel e exigiu a condenação do réu. O advogado de defesa (um turco, ao passo que o réu é um alemão - o contrário da maioria dos casos, em que os turcos estão do outro lado da relação) abraçou a tese da inconstitucionalidade da ação dos policiais, que violaram o domicílio do réu sem a posse de mandado judicial (Untersuchungsbefehl), sem que se configurasse flagrante delito, já que a droga não foi vista, mas sim cheirada. Se vissem uma injeção, poderiam entrar do mesmo jeito?

O advogado pediu a invalidação das provas e a impossibilidade de realização dos testemunhos, já que todas as provas produzidas a partir daí estariam contaminadas, segundo a teoria dos "frutos da árvore proibida". Mas a juíza, que pediu uma pausa para decidir interlocutoriamente, não acatou a tese e prosseguiu o julgamento.

Só isso levou duas horas e meia. O vizinho foi ouvido e a policial que cometeu o primeiro ato de abuso de autoridade. Não me parece que o réu esteja em bons lençóis. A principal tese do advogado de defesa falhou e ele me pareceu muito passivo. Não tem postura, fala baixo e lê a defesa. A promotora é o contrário.

Uma última nota que interessa aos que estudam direito: o sistema de perguntas às testemunhas não é presidencialista, como no Brasil, onde a advogada e a promotora dirigem as perguntas à juíza, que, então, as repergunta ao réu. Aqui ambas podem preguntar diretamente ao réu, sem passar pelo crivo da juíza.

O julgamento terá continuidade no dia 14 de dezembro. Já reservei o dia para voltar ao tribunal e acompanhar o desfecho do caso.

Com isso me despeço! Abraços!

sábado, 21 de novembro de 2009

Container's City - Porto de Hamburg


Galera, hoje eu fiz uma viagem incrível! O destino? O porto profundo de Hamburg, a partir de uma perspectiva à qual poucos têm acesso.

Fomos, novamente com a universidade, à "cidade dos containers", no porto de Hamburg. Da cidade só se consegue ver as gruas e guindastes, mas não se tem a menor idéia da dimensão do gigante. Fomos de ônibus, já que é proibida a entrada de pessoal não-autorizado em diversas áreas.

Tudo no porto de Hamburg é "o maior do mundo" e o "mais moderno do mundo". Ocupa hoje a 11ª posição entre os maiores portos do mundo - o primeiro é o de Singapura. Mas possui um sistema de descarga e carga de containers que eu nunca sonhei que existisse. Foram três horas de êxtase. Quanto mais adentravamos no porto, percorrendo o trajeto dos containers, mais impressionado eu ficava. Tudo isso debaixo de um pôr-do-sol espetacular!

Na sua parte mais moderna, o porto é controlado por dois programas de computadores que, combinados, são responsáveis pela eficiência e pela precisão na descarga das mercadorias. Esses programas controlam cerca de 120 caminhões por meio de sinais eletrônicos, além dos guindastes. O caminhão simplesmente não tem cabine, direção, nada. O mesmo com as gruas. Fala sério, dá pra acreditar?!

Nessa foto pode-se ver o caminhões, organizados em fila atrás dos guindastes, aguardando sua vez

A área do porto é enorme! Movimenta cerca de 3 milhões de containers por ano (um terço desses vindo da China). Esses programas têm todos os caminhões gruas e containers controlados via satélite e enviam informações para os caminhões. Assim, eles se posicionam próximo ao navio, com uma precisão de milímetros, mesmo abaixo dos guindastes. Estes colocam os containers nos caminhões, que seguem um percurso preestabelecido até determinadas áreas do porto (indicada por um número no container), a depender do tipo de mercadoria.

Todo esse processo dura minutos e são mais de 120 caminhões ao mesmo tempo trabalhando. Simultaneamente podem ser descarregados 12 navios de grande porte na "cidade dos containers". Grande porte significa 6000 containers a bordo! O resultado de toda a automatização é a descarga de um navio inteiro em 36 horas!!! Não há tempo sequer para ter prostiuição no porto... E isso é só a parte moderna. Há ainda o modelo tradicional, com gente dirigindo caminhões e controlando as gruas. Depois de descarregada, a mercadora segue por trem para a europa do leste e por caminhões (convencionais) para o restante da europa.


Não há palavras para descrever a sensação de ver um porto gigante funcionando sem gente. Os caminhões comandados por controle remoto, as gruas sem manobristas, os containers indo de um lado para o outro do porto... A visão do futuro. Dois programas de computador abastecem a europa inteira com bens vindos de todo o mundo. De 3 milhões de containers, uma média de 5 containers se perdem anualmente, por erro no envio ou processamento da informação. Próximo passo será a automatização dos aviões e dos carros.

Mas fica a pergunta: e se eles deixam de funcionar? E se há uma pane no sistema? Melhor acreditar que são infalíveis...

Novamente, vale lembrar a frase característica do Hamburger Hafen: "Aqui já sopra hoje o vento de amanhã".

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Shows em Hamburg

Em homenagem ao meu amigo Iêdo, em decorrência da notícia de sua provável ida a São Paulo para o show de Coldplay em março, vou falar um pouco dos shows em Hamburg.

Como já postei anteriomente, os impostos na Alemanha são altos, o que torna os preços dos shows quase insuportáveis. Mesmo bandas locais se apresentam a 10 euros ou mais. Por isso, hay que hacer uma triagem prévia, senão vamos a falência.

Entre os shows que perdi, estão: Dream Theater, Shinedown, The Fray, The All-American Rejects, Archive, Muse e Greenday. Entre os que estão por vir, temos The Prodigy, Franz Ferdinand, Paramore, Scooter, Pet Shop Boys e Nickelback.

Estes, é claro, são os mais badalados. Nem todos me agradam. Isso é apenas para dar um panorama da dinâmica cultural de Hamburg. Dinâmica essa que poderia ser bem mais movimentada, já que as bandas focam especificamente em Berlin quando vêm a Alemanha. Para a segunda maior cidade do país, considero Hamburg desprestigiada nesse ponto. Além disso, tem o fator preço. Nickelback, por exemplo, tá a 65 euros a entrada! Muse foi 55 e Greenday 45. Para terem uma idéia, gasto menos de 60 euros com todas as feiras do mês inteiro.

Por isso, quem vem a Alemanha pensando em curtir alguns mega-concertos, tem algumas opções: ou arranja imediatamente um trabalho no Brasil, ou começa a poupar a mesada ou se vira num trampo por aqui. Do contrário pesa muito no orçamento frequentar grandes shows assim.

Mas se tivesse um de U2 aqui, bem que eu abriria uma exceção...

Abraços a todos e todas!

Studenten demonstrieren!


Capa do Die Welt - um dos mais influentes jornais alemães atualmente: "Manifestações contra o sistema de ensino". O dia hoje foi de protestos e passeatas por toda a Alemanha, numa ação incrivelmente organizada dos estudantes. Se algums coisa vai mudar, não se sabe. Mas que todo o país está sabendo que há insatisfação quanto ao ensino, não se pode negar.

O tema aqui está pegando fogo. Em todas as universidades do país há estudantes em greve, auditórios ocupados e ações contra a conhecida reforma de Bologna. Por outro lado, há os que defendem a cobrança das taxas como condição para boa qualidade da universidade - vide USA. Dizem que 750 euros por ano não abala a rotina de um estudante - além do que esse valor pode ser pago depois que o aluno estiver empregado, como acontece com o FIES.

Em Hamburg, cerca de 1.500 foram ao centro da cidade para protestar. Um número relativamente baixo, se considerarmos que a universidade tem mais de 35 mil alunos e a cidade conta com 1,8 milhão de habitantes. Conversando com Georgia, uma estudate grega, ela me disse que na Grécia esse número seria muito maior. Lembrei dos protestos de 2007, quando ocorreram confrontos com a polícia, carros queimados etc. Lá a coisa pega fogo. Em compensação, não há taxas universitárias.

Em toda a Alemanha, 85.000 estudantes foram às ruas. Só em Berlin, 13.000! A vivência desse momento também faz parte de um intercâmbio. Relato o que ocorre aqui, para que o pessoal que pretende vir ano que vem perceba um pouco da conjuntura política na universidade e no país como um todo.

Seguem algumas fotos dos protestos em todo o país:



Até a próxima!

Visto - Documentos

A partir agora é oficial. Já tenho visto de estudos alemao!

Hoje pela manha fui ao Auländersamt para resolver mais essa pendência. Logo na entrada, o clima é de velório. Várias pessoas, ninguém conversa entre si, alguns com olhares distantes, outros analisando os documentos, certificando-se que está tudo correto.

Estava preparado para esperar mais de duas horas. Mas uma a uma, as pessoas foram sendo chamadas e seu antendimento raras vezes demorava. Comigo, a mesma coisa. Fui atendido rapidamente, interrogado acerca de alguns dados importantes, mas, por ser estudante de interâmbio, nao tive maiores problemas.

Ao todo, tive que apresentar os seguintes documentos: comprovante de matrícula (Immatrikulationsbescheinigung), contrato de aluguel (Mietvertrag), recibo do pagamento da última mensalidade da residência universitária, comprovante de residência em Hamburg (Meldebestätigung), cópia do passaporte e comprovante de seguro de saúde por uma companhia alema (Krankenversicherung). Taxa de emissao (salgada): 60 euros. Validade do visto: um ano.

O bom é que o visto é impresso imediatamente. Passou pelo crivo dos funcionários, eles já ficam com o passaporte e imprimem na hora. Pode ser que tenha ajudado nessa celeridade o fato de eu ter obtido uma permissao já no consulado alemao em Recife - embora nao fosse necessária, já que tive refazer todo o procedimento aqui.

Com essa, já se foi mais uma! E que venham mais!

PS: estou escrevendo nos computadores da universidade. Por isso, perdoem a ausência do til nas palavras - o alemao nem sonha que ele exista.